
Em quatro dias fizemos
uma boa parte do Caminho da Fé e lá encontramos
a pior subida de nossas vidas, o quebra-perna. O trecho
de Luminosa a Campos do Jordão possui 19 km. Sofremos,
mas fomos recompensados por um visual que vale cada gota
de suor.
Prepare os pulmões e as pernas, Caminho
da Fé é coisa de peregrino, mas biker adora.
A versão brasileira do famoso Caminho de Santiago
de Compostela foi criada em 2003 pelo experiente peregrino
Almiro Grings, que além da vivência em trekkings
internacionais, para nossa sorte, é biker e inclusive
realizou uma travessia na Patagônia Chilena pedalando.
O Caminho já nasceu pensado nas mountain
bikes. Para se ter uma idéia, atualmente, 30% dos
peregrinos são ciclistas, um número considerável
pelo pouco tempo de vida do roteiro.
Nosso grupo, organizado pelo Bike Xplorer
era relativamente homogêneo, composto por sete malucos
com uma proposta casca grossa. Fazer o percurso, de Tambaú
a Campos do Jordão em quatro dias e totalmente autônomo,
ou seja, sem veículo de apoio, teríamos que
levar tudo que fosse necessário em nossas mochilas.
O caminho é realmente incrível.
Diferentemente do que se pode imaginar o percurso é
bastante técnico com muito 'single tracks' e muitas,
mas muitas subidas que depois proporcionam downhills alucinantes,
onde você literalmente despenca a 60km/h.
Se você acha que o Caminho é
um passeio de bike, esqueça. São quatro ou
cinco dias de muita ralação, uma verdadeira
penitência. Mesmo que você esteja preparado
suas pernas vão doer muito, mas o que importa é
que pelo visual vale a pena.
As paisagens são maravilhosas e você
passará por trilhas deslumbrantes, cafezais, plantações
de milho, sorgo, morangos (isso mesmo você comerá
muitos, mas muitos morangos), cana e laranjais. Encontrará
muitas nascentes, bicas e cachoeiras. Terá que desviar
de muitas pedras, pedregulhos e pedriscos, mas o mais importante,
passará por serras incríveis como a do Espinhaço,
a Serra dos Lima, o Pico do Gavião. Durante o dia
de pedal você vai ver a altimetria dobrando após
cada serra, ou seja, você sobe muito, desce tudo e
volta a subir novamente, por vezes você faz isso três
vezes no mesmo dia.
Os mais experientes, que não se permitem
empurrar suas bikes, em algumas subidas terão que
abrir uma ou algumas exceções. Acredite que
entre as cidades Borda da Mata e Tocos de Moji você
vai se deparar com uma subida que de tão íngreme
asfaltaram os últimos 200 metros para os carros poderem
subir e você terá que ir para o empurra bike,
e o pior, em zigue-zague.
Você irá se deparar com o quebra-perna
entre Luminosa e Campos do Jordão com uma subida
ininterrupta de 19 km. Isso mesmo 19 km saindo de 950m para
1860m de altitude, algo próximo de 910m de desnível
sem trégua. Você vai pensar em desistir, todo
mundo pensa, são em média 90 km por dia. Sua
mochila, que em tese fica cada dia mais leve, parece que
a cada dia fica mais pesada. A vontade é de jogá-la
montanha abaixo. Fomos com o mínimo necessário.
Tudo isso é possível, pois
a cada 30 km você passa por uma pequena cidade ou
vilarejo aonde é possível comer bem, instalar-se
em pousadas simples e confortáveis e acima de tudo
divertir-se muito. O caminho está se estruturando
com boas opções de hospedagem e alimentação
e neste ponto você não passará por nenhuma
roubada. Se você gosta de uma ralação
forte, tem experiência em longas pedaladas e principalmente
tem FÉ, mas muita FÉ no seu PEDAL, o Caminho
vai ter proporcionar momentos realmente mágicos de
beleza, adrenalina e muita superação.
Texto: Paulo César Toledo
Fotos: Adilson Moralez
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