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ARTIGOS

- Uma aventura no Carnaval


Aqui em Sta. Catarina - a 100 km de Floripa existe um Parque Estadual totalmente selvagem com picos de mais de mil metros que se chama Parque do Tabuleiro.

Saímos de Floripa as 6:30 da manha de domingo de carnaval, eu e meu sobrinho Thiago, com um roteiro para cruzarmos o parque em uma aventura de verdade!

Até acharmos exatamente o local trilha na cidade de SÃO BONIFÁCIO demoramos umas 2 horas. Estávamos com umas dicas que saíram em uma revista como a trilha mais radical do Estado.

Deixamos o carro em um sítio na boca da trilha e as 10:30 começamos os 18 km originais da trilha. Tempo chuvoso e um bom começo de barro. Começamos subindo muito e ainda frios, as pernas travaram no começo. A trilha é uma picada no meio do parque - mata selvagem pura. Vimos uma anta logo na largada. Todo o tempo serpenteando um rio maravilhoso. As subidas super técnicas e as decidas vocês nem podem imaginar, no limite máximo. Vários tombos. Muita, mas muita lama, rios atravessados, pedras , raízes , enfim TUDO.

As rodas tinham tanta lama que era impossível em alguns trechos rodar ou empurrar a bike. Em muito locais tivemos que leva-las nas costas. Dowhills super técnicos de 2 a 3 km eram rotina!

Quatro horas depois, ou seja, duas e meia da tarde estávamos em um vilarejo a 15 km de uma cidade praiana chamada Penha ao lado de Garopaba. Estávamos 200 km distantes de Floripa pois tínhamos descido a serra e estávamos próximos da beira mar! Tínhamos duas alternativas - voltar pela mesma trilha em mais umas 5 horas ou tentar fretar um carro para nos levar de volta. Para ter uma idéia o custo seria de aproximadamente R$ 300,00. O problema é que a bike do Thiago quebrou a gancheira, ou seja, somente no "empurra bike".

Tentamos contratar um jipe para fazer a trilha de volta . Impossível! Nestes dias de chuva nenhum jipe nem com guincho consegue fazer a trilha! Fazer o que? O jeito foi contratar uma saveiro que iria nos levar até a cidade de PENHA 15 km do final da trilha e de lá tentar outro carreto para subir a serra e pegar o nosso carro. São aproximadamente 150 km sem contar o transito do carnaval.

No meio do caminho o motorista da saveiro que é tratorista de arroz na região nos falou que existia uma outra trilha radical que cruzaria a serra. De acordo com suas informações seriam 1h30 empurrando a bike no meio do mato e depois chegaríamos em uma estrada que ficaria uns 20 km de São Bonifácio - local onde estava o nosso carro! O problema é que já eram 16:30 e estávamos sem lanterna, molhados e a temperatura já estava em uns 18ºC, difícil decisão, arriscar ou não? Mas pensamos "Somos trilheiros ou ratos!".

Fomos em frente, o Thiago 100% no empurra bike e eu pedalando quando dava. A corrente travava o tempo todo pois tudo estava com muita lama. A trilha foi aberta também no meio do parque recentemente - M A R A V I L H O S A! Muita, mas muita subida. No topo da Serra a temperatura já chegava a uns 15ºC com uma neblina no estilo fog londrino! Ah, estamos no Carnaval!

Duas horas depois, absolutamente exaustos chegamos em uma estradinha no meio do nada. Um barulho de cachorro e começamos a relaxar pois estava começando a anoitecer e nosso medo era ficar perdidos, com frio, molhados e sem comida no meio do parque e passarmos a noite na verdadeira roubada!

Nossa, uma casa enfim! "Boa Tarde, alguém pode nos ajudar? ". Uma senhora alemã simpática apareceu na janela! "A sra. poderia nos ajudar, estamos perdidos, molhados, exaustos e com fome ". Lógico que ela e o marido, plantadores de fumo, alemães, nascidos e criados na terra iriam nos prestar auxílio.

Café quente, bolo, água e depois de um bom papo conseguimos convencer o Sr. Alemão a nos levar de fusca até o sítio perto de uma usina onde estava estacionado nosso carro!

Imaginem 2 bikes imundas de barro, mochilas e capacetes! A mágica para fazer caber as bikes. O Thiago sentado no meu colo e fomos de fusca 20 km para frente até o nosso carro! O alemão de 70 anos fumando cigarro de palha, muito simpático, desligando o fusca em todas as descidas para economizar gasolina e assim na banguela por uma hora até chegarmos no ponto de nosso carro! O Thiago espremido contra o vidro e o pior sentado no colo do titio aqui!

A noite 20h45 estávamos novamente no sítio onde estava o carro. Depois de agradecermos demais o alemão e darmos todos o dinheiro que tínhamos (R$ 35,00) ele foi embora. Felizes e seguros que a aventura tinha acabado não sabíamos o que ainda tinha de pior para acontecer.

Muito, mas muito frio. Colocamos roupas quentes, empurramos as bikes enlameadas para dentro do carro e tínhamos 25 km até o asfalto de S. Bonifácio.

Sorrindo muito e felizes vínhamos dirigindo no conforto do carro e nos divertindo com as histórias da trip, mas derrepente "PAUH!", uma batida forte no fundo do carro. "Ai! Acertei uma pedra". Cem metros depois a luz do óleo acendeu, "Ai meu Deus, acertei o Carter" Infelizmente estava acontecendo, vazou todo o óleo do motor. Ficamos no meio da estrada com chuva esperando cair algo do céu para nos salvar.

E caiu um ônibus que estava indo para o baile do carnaval, consegui uma carona até o vilarejo de Santo Antonio onde tinha um telefone. Realmente tinha mas não funcionava. Com o dono do bar conseguimos um celular e claro que pegava no alto de um morro ao lado da igreja. Chamei a seguradora e agora tinha a missão de voltar para o local onde o carro estava e aguardar chegar o guincho!

Muito frio, chovendo, eu congelado, com R$ 3,00 no bolso, tendo que voltar no escuro uns 10 km até o carro! Sabia decisão, fiquei amigo do dono do bar, pedi uma vodka por 1,50, comprei uma bolacha salgada por 0,60 e um pacote doce por R$ 1,00. Com tudo deu R$ 3,10 mas consegui um desconto de R$ 0,10 e uma carona do dono do bar até o carro.

Depois disso o jeito foi ficar no carro esperando o guincho da seguradora chegar, meia noite ele chegou e as 2:00hs da manhã nos deixou em casa. Exaustos, todo lanhados, com frio e fome mas muito, muito felizes pois conhecemos pessoas maravilhosas, lugares dividimos e mais uma vez sentimos na pele que viver é superar as adversidades sem nunca perder o humor!


Autores:
Paulo Toledo - 41 anos - biker há mais de 20 anos.
Thiago Pereira - 25 anos - biker desde que nasceu!